Os testes da última fase de três vacinas contra o coronavírus avançam no Brasil. Cerca de 15 mil profissionais da área da saúde voluntários, que atuam na linha de frente contra a Covid-19 e estão mais expostos à contaminação, participam dos testes.

Os médicos, enfermeiros e técnicos voluntários são oriundos de várias partes do país. Eles fizeram uma avaliação médica e não podem ter desenvolvido a doença anteriormente.

“Eu acho que é minha obrigação participar. Tenho esperança que, com ela, a gente tenha o melhor desfecho possível e que acabe logo [a pandemia]”, diz o técnico em enfermagem e voluntário Thiago Azevedo Blodorn.

Uma das vacinas é desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac e testada pelo Instituto Butantan, em São Paulo, que escolheu 12 centros de experimentos em cinco estados e no Distrito Federal.

No Rio Grande do Sul, o centro de testes é o Hospital São Lucas, da PUCRS, em Porto Alegre. São 852 profissionais da saúde que atuam em vários hospitais da Região Metropolitana da Capital e estão participando da pesquisa.

Cada voluntário, 14 dias depois de tomar a primeira dose da vacina, retorna para receber a segunda e preencher um formulário relatando se sentiram algum sintoma diferente. Uma equipe médica, então, analisa todas essas informações.

“Quanto mais proteção, melhor, e o ideal é que seja por um tempo prolongado”, comenta o chefe do Serviço de Infectologia do HSL/PUCRS, Fabiano Ramos. “Do que a gente tem até agora dos estudos iniciais, é uma vacina que gera proteção em mais de 90% das pessoas depois da segunda dose. Agora, o que está sendo avaliado é por quanto tempo essa proteção vai durar”, completa Ramos, que também coordenador da pesquisa no RS.

“Até o momento a gente não sabe ao certo quanto é o tempo que esses anticorpos persistem nas pessoas e como que é essa proteção, então um dos objetivos do estudo é avaliar por quanto tempo esses anticorpos vão persistir e como vai ser essa proteção ao longo do tempo”, relata.

Médico Luciano Marini foi o primeiro a receber a vacina em Porto Alegre — Foto: Bruno Todeschini/PUCRS

Os voluntários foram divididos em dois grupos. Metade está tomando a vacina e a outra metade, o chamado placebo, substância que não tem efeito nenhum na saúde. Mas nenhum deles sabe o que está recebendo.

A médica anestesiologista e voluntária Alice Becker Teixeira diz que não sentiu nenhum efeito adverso.

“Foi tudo bem, não senti nada, por enquanto. Tem que preencher um diário, todas as noites, medir a temperatura axilar, anotar a temperatura no diário e colocar se teve algum sintoma”, descreve.

A expectativa pela vacina é grande, devido à pressão que os profissionais de saúde sentem desde o início da pandemia.

“A gente fica com medo de perder os colegas e de infectar também, mas além dos pacientes ficarem doentes, a gente vê os colegas ficando doentes, é bem complicado, é uma pressão bem forte, bem difícil passar por esse momento”, relata.

Para a técnica em enfermagem e voluntária Tatiane Mendonça, o sentimento é de satisfação.

“Eu fico muito contente. É uma sensação de ter feito minha parte. Nós trabalhamos com vida, para preservar vidas, então saber que a gente pode participar, pode ser parte contribuinte, é muito importante. Nosso objetivo maior é cuidar da saúde das pessoas, que elas fiquem bem, e essa doença a gente tem poucos recursos para combater. A vacina é importante para evitar novos óbitos e perder mais pessoas do que a gente perdeu até agora”, afirma Tatiane.

Três estudos simultâneos

O Brasil também participa de outros dois estudos: o da indústria farmacêutica norte-americana Pfizer, que aplica testes em parceria com o Centro Irmã Dulce, em Salvador, e o Centro Paulista de Investigação Clínica; e o da Universidade de Oxford em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Primeira voluntária fora da Inglaterra a tomar esta vacina, a cirurgiã dentista e voluntária Denise Abranches demonstra confiança.

“O sentimento é de gratidão, de poder colaborar não só como cidadã, mas também como profissional de saúde. Nosso encontro com o vírus é diário, uma batalha diária. Então, a gente vê o quanto é importante a imunização e a ausência desse vírus no nosso meio, no nosso convívio.”



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