“O mais difícil para mim foi trabalhar ali, entregar outros pacientes bem, salvar vidas, e não conseguir a cura dele. Isso foi o mais dolorido e triste”. O desabafo é da técnica de enfermagem Viviane Sozzi, de 33 anos. O marido dela, Alan Sozzi, morreu aos 39 anos devido a complicações da Covid-19. A profissional trabalha na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) geral do mesmo hospital em que o companheiro foi internado, e lamenta que não tenha conseguido ajudá-lo.

Alan era um tatuador conhecido na cidade em que morava, Praia Grande, no litoral paulista, devido aos desenhos realistas que fazia, conforme conta a esposa. O casal tinha uma filha de oito anos, que, segundo Viviane, era muito apegada ao pai.

No dia 10 de agosto, ele começou a sentir sintomas do novo coronavírus, como febre, cansaço e dor no corpo. Poucos dias depois, apresentou piora no quadro e precisou passar por atendimento no pronto-socorro do município. “Nesse dia que ele deu entrada no hospital, eu estava de plantão lá. Ele foi atendido e depois liberado para tratamento em casa”, conta.

Na foto: tatuador, esposa (de vestido preto), filhos dela e, à frente, a filha do casal — Foto: Arquivo Pessoal

Porém, passados alguns dias, o tatuador voltou a apresentar piora no estado de saúde. “Achei que ele teria uma parada cardíaca em casa, mas consegui colocá-lo no carro e levá-lo até a tenda no [bairro] Quietude”, conta. Depois, ele chegou a ir para o hospital de campanha da cidade, mas rapidamente foi transferido para a UTI reservada à doença no Hospital Irmã Dulce, onde recebeu todo o suporte.

“Eu sou técnica de enfermagem da UTI geral, e ele estava na UTI Covid. Era muito sofrimento saber que ele estava ali, tão perto e tão longe. Nossa filha fez um desenho para ele no computador, um dia antes de ele morrer, e pediu que eu entregasse, falou que era para dar força, para ele voltar para a nossa casa”.

Porém, Sozzi não resistiu e veio a óbito na madrugada de domingo (23). O corpo foi sepultado nesta segunda-feira (24). “Ele estava sofrendo demais. Esperou eu chegar para se despedir e partir. Ele era um homem único, amoroso e um grande pai. Não há palavras para descrever essa dor. Ele me ajudou a me formar e sempre falava que eu cuidaria dele na velhice. A doença nos pegou de surpresa”, lamenta a esposa.

Filha fez desenho em computador para o pai, desejando forças para que ele voltasse para casa — Foto: Arquivo Pessoal



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