Dois dos setores industriais que mais demitiram em 2014 esperam um ano melhor graças às expectativas de alta nas exportações. Com o dólar médio a R$ 2,70, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) projeta reverter a queda de 6,7% registrada em 2014 e faturar 2,7% mais com as vendas ao exterior – mais modesto, o desempenho no varejo doméstico deve subir 0,4%.

Ainda sem estimativas fechadas, a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) espera que as vendas internas permaneçam estagnadas em relação ao ano passado, mas que as exportações cresçam.

Com a ajuda do setor externo, o ramo têxtil prevê reduzir o déficit de vagas de 20,8 mil para 4 mil. Já os calçadistas acreditam que em 2015 não haverá demissões líquidas, ao contrário do que ocorreu nos últimos quatro anos. Entre os mercados-alvo estão antigos clientes nos quais as exportações brasileiras perderam espaço nos últimos anos, como os Estados Unidos, e novos compradores, como os vizinhos Bolívia e Paraguai e o Oriente Médio.

Em 2014, os saldos negativos que vinham sendo observados nos dois segmentos, que estão entre os mais intensivos em mão de obra da indústria, se disseminaram. Divulgado sexta-feira, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apurou resultado ainda pior para os ramos ligados ao setor automotivo – mecânica, metalúrgica e de material de transportes -, que, juntos, perderam 89,7 mil postos com carteira. Com geração de 180,8 mil e 476,1 mil empregos no comércio e nos serviços e redução de 106,5 mil vagas na construção civil, o saldo do ano passado, de 396,9 mil, foi o pior pelo menos desde 2002.

Presente em 91 países, a calçadista Piccadilly tem planos de aumentar de cinco para dez o número de lojas nos EUA. O presidente da empresa, Paulo Eloi, quer aproveitar o ciclo de desvalorização do real para elevar a participação das exportações no faturamento, atualmente em 25%, para o nível de 2008, cerca de 33%.

Filho do fundador da marca, ele diz não lembrar “de um ano mais difícil do que 2014″, quando a Piccadilly precisou demitir 400 dos 4,6 mil funcionários. A expectativa para este ano, entretanto, é manter os trabalhadores das sete fábricas, todas no Rio Grande do Sul.

A West Coast, que conta com três fábricas em Sergipe e 1,6 mil colaboradores, também se programa para recuperar o espaço perdido nas vendas internacionais. A meta é elevar de 12% para 15% a participação no faturamento, que era 20% em 2011. O dólar a R$ 2,70, afirma Eduardo Smaniotto, diretor comercial, estimula as exportações e, ao mesmo tempo, representa um aumento de preços sustentável de matérias-primas importadas. “Mas a melhor cotação é a estável”, afirma.

Neste ano, a empresa quer vender mais sandálias de couro para países do Oriente Médio, como Arábia Saudita e Emirados Árabes, para onde os embarques de calçados brasileiros cresceram em valor 42,2% e 20%, respectivamente, em 2014, contra queda de 2,6% na média geral, na mesma comparação.

A fabricante paulista de denim Canatiba voltou a buscar novos contratos no exterior, depois de assistir nos últimos três anos à redução das exportações de 15% para 3% do faturamento. A empresa já fez contatos na Colômbia, Paraguai, Estados Unidos e Europa, mas espera uma definição mais clara do cenário para o câmbio neste ano. Segundo Darci Covolan, diretor comercial, a empresa preferiu segurar a mão de obra treinada e manteve o quadro com 3.000 funcionários – número que deve ser mantido neste ano.

Focada no mercado interno, a Cativa Têxtil, de Pomerode (SC), importa cerca de 40% do que vende da China e não pretende mudar o modelo de negócio no curto prazo, mesmo com importações mais caras. Com presença forte no pequeno varejo que atende às classes B e C, a empresa conseguiu crescer 14% em 2014, mesmo com o ano difícil, e manteve os 2,1 mil funcionários. “A indústria brasileira não consegue fazer um blazer, uma camisa de seda. Nosso cliente compra por impulso. Ele não vai deixar de levar um vestido se o preço passar de R$ 160 para R$ 175″, diz Catia Sprung, diretora comercial.

Nesse sentido, Rafael Cervero, presidente da Abit, ressalta que o dólar mais caro não é suficiente para devolver a competitividade da indústria. Neste ano, diz, somam-se a desafios antigos do setor – regime tributário pouco competitivo e falta de acordos comerciais – problemas como o aumento do custo de energia, dos juros para investimento e o risco de faltar água.

Fonte: Valor Econômico