Em 1900, a medicina mudou. Emil Adolf von Behring, microbiólogo alemão, descobridor dos anticorpos, conseguiu curar doentes com difteria ao transferir para eles o plasma de cavalos imunes à bactéria. Um ano depois, von Behring venceu o primeiro Nobel da Medicina da História. E tornou-se o pai da imunologia.

Quase 120 anos mais tarde, após muitos avanços médicos e tecnológicos, a mesma técnica de transfusão está a ser testada para combater a Covid-19. Portugal está neste momento a preparar-se para iniciar um ensaio clínico que arrancará em maio. Lá fora, a terapêutica já deu resultados e pode ser usada enquanto se espera pela vacina.

O plasma é a parte líquida do sangue, excluindo todos os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas, explica Pedro Madureira, investigador do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3s) e co-fundador da biotecnológica Immunethep.

Embora seja essencialmente composto por água, o plasma contém também as proteínas, hormonas, minerais e nutrientes que circulam no sangue. Mas não só: “As pessoas que recuperaram da infeção, vão ter no plasma muitos anticorpos contra o novo coronavírus, acrescenta.

Por isso, o tratamento com plasma transfere esse plasma rico em anticorpos contra o SARS-CoV-2 para os doentes infetados pelo vírus.

“Esses anticorpos entram no sistema circulatório do recetor e, como são específicos para o vírus, vão reconhecer as moléculas na sua superfície, revesti-lo e, assim, impedir que ele consiga ligar-se às proteínas na superfície das nossas células”, descreve Pedro Madureira.

Com o vírus neutralizado, a batalha do sistema imunitário contra o invasor torna-se mais simples. Para sobreviver, o SARS-CoV-2 precisa de entrar numa célula e fazer dela refém, utilizando determinadas estruturas para se replicar e espalhar pelo corpo. Mas se for revestido com os anticorpos, já não conseguirá fazê-lo. E a infeção estanca.

Em teoria, todos os pacientes infetados pelo novo coronavírus poderiam receber o plasma de pessoas recuperadas para combater a doença. No entanto, na maior parte das pessoas, o sistema imunitário consegue enfrentar a infeção, mesmo que com a ajuda de medicamentos. Por isso é que Pedro Madureira acredita que esta terapêutica “só fará sentido para os casos graves”. Os pacientes recuperados da Covid-19 ainda são poucos, por isso “haverá sempre uma limitação grande na quantidade de plasma a utilizar”.

Questionado sobre se o tratamento com plasma também pode ser usado preventivamente, isto é, para evitar uma infeção pelo novo coronavírus, Pedro Madureira explica que sim, mas que os efeitos dessa terapêutica durariam muito pouco tempo.

É que estes anticorpos não circulariam para sempre no sangue do receptor e deixariam de fazer efeito ao fim de cerca de dois meses.

“O tempo de semi-vida da classe de anticorpos que dura mais, a imunoglobulina G, é de 23 dias. Ou seja, passados 23 dias, a quantidade desses anticorpos já passou a metade. Passados 46 dias, será um quarto da quantidade inicial e por aí adiante”, explica o imunologista.

A utilização do plasma do sangue no tratamento da Covid-19 envolve um certo grau de “risco de haver qualquer efeito adverso”. “Em circulação no plasma estão algumas proteínas que o recetor pode não tolerar. Nunca é ideal doar plasma na sua totalidade”, adverte Pedro Madureira.

Ainda assim, os riscos de uma transfusão de plasma já são controláveis. Apesar de atualmente haver poucos tratamentos feitos com esta técnica, quando eles são aplicados utilizam-se “temperaturas moderadamente elevadas [60ºC] para despistar possíveis efeitos tóxicos e retirar moléculas causadoras de alguns problemas”.

As moléculas de que fala o imunologista do i3s pode ser a causadora de um dos riscos que poderiam advir da utilização do plasma em doentes. São substâncias que, no organismo, estão relacionadas com o sistema imunitário mas que fazem parte do chamado sistema complemento. Dele faz parte um conjunto de proteínas que ajudam a ação dos anticorpos.

Isso é particularmente importante em infeções bacterianas, descreve Pedro Madureira: “Quando um anticorpo se liga a uma bactéria, ele não a vai matar. Há um conjunto de moléculas e células que vão reconhecer que esses anticorpos se ligaram à bactéria e, aí sim, vão destruí-la”.

Ora, o trabalho desse sistema complemento é precisamente identificar os anticorpos que neutralizaram o vírus ou a bactéria: “O anticorpo que reveste o invasor fica exposto e é identificado pelas proteínas do sistema complemento, que levam à destruição dele”.

Na maior parte dos casos, essas proteínas não causam nenhum problema no recetor do plasma. No entanto, em algumas circunstâncias, pode traduzir-se num aumento da inflamação no organismo do paciente:

“Os mediadores inflamatórios, se forem transmitidos em excesso, podem causar problemas”.

Quando isso acontece, pode surgir a chamada doença do soro — uma reação alérgica desencadeada por quem recebe o plasma sanguíneo por causa de uma resposta exagerada do sistema imune. Por isso é que, hoje em dia, se transfere apenas a quantidade necessária de componentes no plasma.



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