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Cidades que estão com planos de abertura mais avançados no país, no Norte e Nordeste, seguem há mais de um mês apresentando queda em números de infectados e mortes e estão com a covid-19 sob um aparente controle. Elas passaram pelo pico da primeira onda da doença e não têm repiques até aqui.

Especialistas consultados por VivaBem afirmam que isso é uma “surpresa positiva” e pode indicar que protocolos sanitários e mudanças no comportamento social estão ajudando a garantir o sucesso do chamado “novo normal” antes de qualquer local alcançar a famosa imunidade de rebanho —quando uma boa parcela da população já foi infectada e desenvolve anticorpos contra o vírus, evitando que ele se espalhe, pois não encontra novas pessoas para infectar.

Segundo o maior inquérito sorológico em andamento no país —a Epicovid, coordenada pela Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) — o país ainda está longe de alcançar patamares que garantam um controle da epidemia graças à imunidade de rebanho.

Daniel Mansur, membro do Comitê Científico da SBI (Sociedade Brasileira de Imunologia), explica que o índice mínimo falado de uma eventual imunidade de rebanho seria de 50% da população já infectada. Na pesquisa da Ufpel, Norte e Nordeste apareceram com os maiores percentuais de pessoas já contaminadas, mesmo assim em patamares pequenos: 8% e 5,1% da população, respectivamente. Esses números variam entre as cidades, com patamares mais altos normalmente nas capitais, mas todas estão longe da imunidade de rebanho.

“Falar em imunidade de rebanho como o fator que determinou essas quedas é algo muito distante”, diz.

O que pode explicar a queda nos números?

Mansur acredita que o sucesso das retomadas se dá por outros fatores, como a maior consciência das pessoas, que mudaram de comportamento e passaram a se proteger do vírus e também tomar cuidados para não espalhá-lo quando estão doentes. A proibição de grandes aglomerações, como aulas, shows e jogos de futebol, que não voltaram ainda nas cidades que estão retomando suas atividades, é outro motivo para a redução dos casos. “Esses são motivos bons para explicar o número de infectados não ter engrenado novamente”, explica.

O secretário de saúde do Recife, o médico Jailson Correia, ainda acrescenta que estudos mais recentes trazem uma nova forma de pensar sobre a imunidade de rebanho. “O percentual de pessoas expostas variou de acordo com o perfil de comportamento. Trabalhadores de serviços essenciais tiveram uma exposição muito maior do que quem está em casa desde o início da pandemia. Os percentuais são diferentes, ou seja, não se atingirá de forma similar a imunidade entre todos os grupos, por isso quanto mais grupos de volta às ruas, menor a imunidade deles”, explica.

Isso significa que, apesar de as cidades ainda estarem longe de atingir o percentual de infectados suficiente para garantir a imunidade de rebanho, grande parte das pessoas que mais circulam nas ruas, já tiveram contato com o coronavírus e por isso o número de doentes começou a cair, já que vírus não “encontra” mais tanta gente para infectar.

Tempo de imunidade incerto

Luiz Gustavo Góes é pós-doutorando do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas e atua na Plataforma Científica Pasteur da USP (Universidade de São Paulo). Ele estudou por quatro anos, em seu doutorado, as quatro espécies de coronavírus que circulam na população humana. Apesar das análises de vírus da mesma família, o pouco tempo decorrido da pandemia impede de saber quanto tempo deve durar a imunidade do vírus Sars-CoV-2. Por isso ainda não podemos falar em imunidade de rebanho.

Não sabemos quanto tempo dura a imunidade porque ainda estamos na primeira onda. A maioria das pessoas não foi exposta ao vírus ainda.

Outra dúvida a que ele se refere é ao percentual estabelecido para que a imunidade de rebanho seja capaz de frear a transmissão do vírus em um local. “Ainda não existe um consenso entre os cientistas, mas a taxa deve beirar uns 60%-80%, segundo os epidemiologistas. Mas creio que estamos [no Brasil] muito longe dessa imunidade. Considerando a taxa de mortalidade da covid-19 em torno de 1%, imaginar uma cidade com imunidade rebanho significaria um grande número de mortos”, afirma.

Um dos modelos matemáticos adotados para medir a dinâmica de uma epidemia é o SEIR (Suscetível, Exposto, Infectado, Recuperado). Por meio dela, admite-se que inicialmente uma população nunca foi infectada e assim todos são suscetíveis já que não possuem defesas imunológicas para o vírus.

“Já o ‘exposto’ do modelo é aquele indivíduo que foi exposto ao vírus, podendo ou não acarretar a infecção ou doença. ‘Infectado’ é aquele no qual o vírus está se multiplicando, são os transmissores. E ‘recuperado’ é aquele que já melhorou dos sintomas, e agora deve, muito provavelmente, ter defesa contra o vírus”, explica.

Góes ainda diz que, por conta da dinâmica disforme da epidemia no país, os números ainda são preocupantes já que não há uma queda no total.

O Brasil é um país muito grande e heterogêneo. As cidades estão em diferentes fases da epidemia. No entanto, o número parece estável no geral. Falta ainda começar a diminuir.

Pessoas tomam banho de mar na praia de Boa Viagem, no Recife, em 12 de julho

Imagem: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Dinâmica pelo país

A pesquisa da Ufpel mostra que a situação no Brasil é muito diferente em cada cidade, por isso cada local deve ter a retomada das atividades planejada de uma forma diferente para evitar que ocorra uma segunda onda. Manaus chegou a ter 14,6% de pessoas com anticorpos na segunda fase da pesquisa, mas na terceira apresentou queda para 8% —o que indica, em tese, uma retração da infecção.

Em Fortaleza, o percentual de pessoas infectadas coletadas na terceira fase foi o maior entre as capitais do Nordeste: 20,1%. Boa Vista alcançou o maior índice até agora, com 25,4% na segunda fase.

Os dados da pesquisa revelam um país completamente diferente do ponto de vista epidemiológico no Sul. Em Porto Alegre e Florianópolis, por exemplo, nenhum dos 250 entrevistados das fases dois e três tiveram anticorpos detectados, o que demonstra que os estados ainda vão enfrentar seus picos da primeira onda.

Como o cenário da epidemia varia até mesmo dentro de estados pelo país, Daniel Mansur afirma que as reaberturas de cidades devem sempre ser guiadas por números específicos de cada local. “Mais do que um número de pessoas já infectadas, é preciso ver a inclinação da curva, se a epidemia está progredindo, se tem número de casos aumentando”, explica, citando que um ponto importante a ser levado em conta é que a capacidade de testagem aumentou no país ao longo da epidemia.

“Pode ser que no começo da epidemia a gente teve muito mais gente doente do que a gente conseguiu testar. Minas Gerais é um exemplo: em um momento lá havia 90 mil amostras esperando resultado, cinco vezes mais que o número de gente doente. Talvez o número do começo da epidemia ajude a explicar nessas cidades que começaram antes”, afirma.

Vera Magalhães, pesquisadora e professora de doenças tropicais da pós-graduação da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), vê na baixa testagem do Brasil um empecilho para ter a certeza da queda continuada nas cidades já reabertas.

“Aqui no Brasil não tenho confiança nos dados que são apresentados. A gente tem formas indiretas de saber que está havendo a diminuição [da epidemia] em alguns locais pela ocupação de leitos em hospitais, principalmente nas UTIs. Mas a gente não pode afirmar de forma categórica porque não testamos, não diagnosticamos como foi feito na China, na Coreia, nos países europeus. Então fico receosa de passar uma ideia como se houvesse redução significativa, quando a gente sabe que ainda está em expansão”, explica.

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