Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) vai avaliar as repercussões da infecção por coronavírus no parto e no aleitamento materno.

“Uma motivação do projeto é o número muito baixo de trabalhos publicados sobre a transmissão vertical por meio do leite materno”, disse a professora Fernanda Penido Matozinhos, coordenadora do projeto.

Desenvolvido na Escola de Enfermagem, o estudo vai acompanhar mulheres que deram à luz em três hospitais públicos de Belo Horizonte (Risoleta Neves, Sofia Feldman e Júlia Kubitschek) e em uma unidade de saúde da cidade portuguesa de Matosinhos.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda não há evidências científicas de transmissão do coronavírus durante o parto, nem pela amamentação. Neste mês, conhecido como “Agosto Dourado”, iniciativas no Brasil e no mundo reforçam a importância do aleitamento materno.

“A gente pede, com recomendação da OMS, para manter a amamentação, mesmo no caso de infecção pela mãe. Caso a mãe deseje amamentar e tenha condições clínicas, ela pode prosseguir”, disse Fernanda Matozinhos.

Professora Fernanda Penido Matozinhos, que defende a importância da amamentação. — Foto: Isadora Vargas/Fernanda Penido Matozinhos/Arquivo pessoal

Puérperas e seus filhos, nascidos nos meses com maior incidência de casos confirmados de coronavírus (maio e junho), serão acompanhados através de prontuários médicos e entrevistas por telefone.

Assistência ao parto, via de nascimento e práticas de aleitamento serão investigados para avaliar a manutenção do aleitamento materno sem prejuízo aos bebês. Além de enfermagem, a pesquisa conta com pesquisadores de áreas como nutrição, gestão e estatística.

Depois de analisar os prontuários, mães que tiveram coronavírus serão selecionadas para participar das próximas fases da pesquisa.

“Para dar prosseguimento, serão considerados os casos confirmados e suspeitos. Eles é que terão repercussões no trabalho de parto, no nascimento e na manutenção do aleitamento materno”, completou a professora.

As mulheres serão divididas em três grupos: as que alimentam seus bebês exclusivamente com leite materno, as que recorrem à amamentação mista (com introdução de outros alimentos) e aquelas que não amamentam.

Pesquisadora da UFMG amamentando a filha Lara. — Foto: Bruna Teixeira/Fernanda Penido Matozinhos/Arquivo pessoal

Além de professora do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública da UFMG e coordenadora da pesquisa, Fernanda Penido Matozinhos, de 32 anos, é mãe de Lara, de 3 anos, e de Teresa, de 1 ano e 3 meses. A caçula ainda mama.

“Tive muitas dificuldades para amamentar, mas persisti com apoio e informação de qualidade. São meses de muito aconchego, muita sintonia, muito apego. Talvez tenha sido uma das experiências mais transformadoras, loucas e difíceis da minha vida. Penso que cada família busca suas formas de estabelecer vínculo com o bebê e, no nosso caso, esta foi uma das escolhidas”, relatou a enfermeira.

Quem também optou pela amamentação como forma de conexão com o bebê foi a superintendente de gestão de pessoas Virgínia Silame. Mesmo mantendo o isolamento social, ela e o marido, o protético Vitor Paradela, foram contaminados pelo coronavírus no final da gravidez. Lavínia, segunda filha do casal, nasceu saudável em junho deste ano, em um parto natural.

“Quando positivei, estava com 36 semanas de gestação. Ainda brinquei: ‘A Lavínia vai esperar 40’. Mas não esperou. Ela nasceu com 38 semanas, quando eu estava no meu 14º dia de Covid”, relatou Virgínia Silame, de 38 anos.

Casal com Covid-19 teve bebê em Belo Horizonte — Foto: Hemmerson Magioni/Divulgação

O casal teve sintomas leves da doença e o filho mais velho, Heitor, de 2 anos, ficou assintomático. “Mesmo assim, na segunda semana a tosse foi uma coisa muito angustiante. Eu não conseguia dormir direito nem comer direito. Emagreci 4 kg em duas semanas, foi um pouco desgastante”, disse Virgínia.

A recuperação do parto foi rápida e Virgínia, de máscara, amamentou Lavínia assim que a bebê nasceu.

“Acredito muito no poder da amamentação para vínculo, prevenção de doenças, fortalecimento do sistema imunológico… os benefícios são imensos. Eu vejo as respostas no Heitor e inclusive na Lavínia, apesar de ter só 2 meses. Não que a amamentação faça de alguém mais mãe, mas eu tenho certeza de que é um diferencial”, disse.

A pesquisa sobre as relações entre coronavírus, parto e aleitamento materno já foi aprovada pelas instituições participantes e pelo Comitê de Ética em Pesquisa (Coep) da UFMG. A previsão é que os resultados sejam publicados até o final deste ano.

“Para as atuais e futuras mamães, desejo persistência e apoio no aleitamento materno! E muita informação baseada em evidências científicas nessa afetuosa jornada”, concluiu a pesquisadora da UFMG.



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