Se no início os setores exilados do Brasil para o Paraguai eram principalmente os fabricantes de tecidos, confecções e de calçados, hoje alcançam também os produtores de autopeças, de iluminação, alumínio, plásticos e indústrias metalúrgicas.

Luminárias das novas estações de trem e metrô de São Paulo foram confeccionadas na Koumei, instalada em Ciudad del Este, logo após a Ponte da Amizade, principal ligação entre Brasil e Paraguai. Original de Embu das Artes (SP), a fábrica se mudou para o país em março.

São as médias empresas as principais interessadas hoje no Paraguai, e elas têm como objetivo abastecer não apenas o mercado que já têm no Brasil, mas também alcançar novos clientes no exterior.

“No Brasil não éramos competitivos para exportar. Daqui podemos competir com os chineses nos EUA e na Europa”, afirma Daniel Rocchetti, diretor industrial da Koumei, que emprega hoje cerca de 1.200 funcionários.

“Em São Paulo, eu gastava três, quatro dias da semana resolvendo pendências tributárias ou trabalhistas. Aqui, eu trabalho focado no negócio, tenho até tempo ocioso”.

Por ser um país de renda baixa, o Paraguai tem acesso aos principais mercados do mundo com tarifas inferiores às cobradas do Brasil. Além da facilitação para exportação, o país também é mais aberto a compras no exterior.

Para o argentino Jorge Bunchicoff, presidente da Blue Design, que fabrica jeans para grifes do Brasil e da Argentina, esse é um diferencial do país em comparação com os vizinhos do Mercosul.

“O mais importante é que o Paraguai é um país aberto, que nos permite ter acesso aos tecidos mais sofisticados e aos melhores equipamentos do mundo sem pagar imposto de importação”, diz.

A abertura da economia paraguaia, porém, é alvo de preocupação de autoridades brasileiras, que temem a simples triangulação de produtos importados da China.

Por isso, travas foram criadas no comércio do Mercosul. Para vender ao Brasil sem pagar imposto de importação, a empresa tem que comprovar que entre 40% e 60% do produto foi feito na região.

LEÃO BRASILEIRO

Segundo Ernesto Paredes, secretário executivo do Conselho Nacional de Maquilas, muitas empresas brasileiras tentaram burlar as regras e acabaram perdendo a habilitação ao regime de maquila.
“Não pode trazer a roupa já cortada e só costurá-la no Paraguai, é preciso haver um processo produtivo”, afirma. “Não raro a Receita Federal do Brasil vem ao Paraguai fiscalizar se a empresa realmente existe e o que produz”.

Mas não é só o rigor da Receita brasileira que preocupa os brasileiros que atravessam a fronteira. Por ser um país ainda pouco industrializado, o Paraguai não tem uma cadeia de subfornecedores, aumentando a dependência de serviços de manutenção e de reposição do Brasil.

Bunchicoff diz que, como efeito adverso, tem que ter estoque e, quando as máquinas param, podem ficar dias sem conserto. “Em São Paulo, ao contrário, há fornecedores ao alcance das mãos”.

Outro fator de queixa é a ausência de mão de obra qualificada para a alta gerência. Tanto na Blue Design quanto na Koumei, os cargos de chefia são ocupados por brasileiros, que na maioria dos casos moram em Foz do Iguaçu, no Paraná.

LOGÍSTICA E BUROCRACIA

A logística é de longe o maior problema dos que se lançam a produzir no Paraguai para vender no Brasil.

A principal conexão, a ponte da Amizade, fica engarrafada com turistas a maior parte do dia. À noite, uma fila de carretas se forma em Ciudad del Este à espera da hora autorizada para passar.

A ponte tem três pistas a depender do horário -e do fluxo-, duas são usadas para ir para voltar do Paraguai.

A alternativa rodoviária mais próxima é via Salto del Guairá, a 230 km ao norte dali, que faz fronteira seca com o Mato Grosso do Sul -e próxima à ponte que liga o Estado a Guaíra, no Paraná.

O gargalo também é burocrático. Industriais se queixam de greves ou “operações padrões” de fiscais da Receita na ponte da Amizade.

No ano passado, dizem empresários e autoridades locais, os fiscais ficaram parados por cinco meses. Um empresário revelou que a burocracia o levou a recorrer a contrabandistas para passar uma máquina que tinha que ser consertada no Brasil.

O projeto de uma segunda ponte já esteve na agenda do governo de Dilma Rousseff, mas acabou emperrado por falta de autorização ambiental e, depois, de dinheiro. Recentemente, o governo do Paraguai declarou que estaria disposto a pagar pela obra.

Do lado paraguaio, a única rodovia que margeia a fronteira com o Brasil passa por duplicação. Por ela circula a maior parte dos grãos e produtos industriais que vai para a ponte da Amizade.

O ministro da Indústria, Gustavo Leite, promete para janeiro a operação do corredor viário entre Ponta-Porã (MS) e Concepción.

Quer transportar parte da soja do Mato Grosso do Sul pelo rio Paraguai até os portos no rio da Prata, aproveitando a deficiência logística brasileira, que embarca soja nos congestionados portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR).

O Paraguai ambiciona transportar pela rota, de 200 quilômetros, 1,5 milhão de toneladas de grãos brasileiros.

QUAIS REGIMES PARA INSTALAÇÃO NO PARAGUAI?

Regime de maquila

A empresa fica livre de pagar imposto de importação da matéria-prima e do maquinário desde que exporte um novo produto, com parte da produção no Paraguai, em até um ano

As maquiladoras são empresas que têm como finalidade a exportação e, por isso, têm limites para vender no mercado paraguaio

As normas do Mercosul exigem conteúdo regional de 40% a 60% para o comércio sem tarifas dentro do bloco

Zona franca

Voltado principalmente para o setor comercial, atraiu indústrias no Paraguai. Neste modelo, a empresa tem que ficar dentro de uma das duas zonas francas que existem no país (ambas em Ciudad del Este) e ter um contrato com a concessionária da zona

Caso venda no mercado paraguaio, a taxação é semelhante à das empresas normais

US$ 1,05 bilhão foi a importação brasileira de produtos paraguaios de janeiro a novembro deste ano; as exportações somaram US$ 2,4 bi

PRINCIPAIS PRODUTOS COMPRADOS PELO BRASIL DO PARAGUAI

– Cereais
– Máquinas e aparelhos elétricos
– Materiais têxteis
– Animais vivos e carnes
– Plásticos e suas obras
– Gorduras, óleos e ceras animais

*Até setembro
** Previsão do FMI
*No caso do PIB per capita, critério é o PPP, conversão para o dólar usando como base o poder de compra da moeda local frente à de concorrentes no exterior

Fontes: Unctad, governo do Paraguai/Ministério da Industria, Banco Central e Mdic

Fonte: Folha de S. Paulo