Foto: Evaristo Sa/AFP via Getty Images

Na última quinta-feira, 16 de abril, um presidente visivelmente fragilizado e nervoso anunciou o novo ministro da Saúde em plena guerra contra o coronavírus. Bolsonaro não aparecia publicamente tão desesperado desde quando o jornalista Reinaldo Azevedo lhe fez uma pergunta simples sobre dívida interna em um debate há dois anos. Naquele dia, o então candidato, sob evidente pavor, começou a juntar aleatoriamente termos econômicos e formou frases desconexas que nada tinham a ver com a pergunta. Dessa vez, leu um discurso pronto — ou ouviu no ponto eletrônico, suspeita-se — fazendo pausas intermináveis, mostrando um sujeito sem a menor familiaridade com aquele texto. Com a covardia costumeira, o presidente fez todo o pronunciamento olhando para o chão, como se procurasse um buraco para se enfiar.

Bolsonaro escolheu um ministro cujas ideias para o combate à pandemia são diametralmente opostas às suas e plenamente alinhadas às do ex-ministro Mandetta e da OMS. Se o principal motivo da insatisfação de Bolsonaro com Mandetta era a sua defesa intransigente do isolamento horizontal, por que então colocou alguém que pensa exatamente igual? Apesar de lógica e óbvia, a pergunta não é sensata quando se trata de um presidente que não se move pela razão, mas pelos delírios forjados nas informações que lê no WhatsApp. É difícil interpretar as ações provenientes de uma mente povoada por conspirações e misticismos.

O Ministério da Saúde, como se sabe, está sob a tutela dos militares, que querem que a pasta siga critérios científicos e rejeitam a possibilidade de um ministro olavista. Foram eles que garantiram a manutenção do ministro quando Bolsonaro ameaçou demiti-lo publicamente. O problema foi que Mandetta cansou de sustentar o teatro armado junto a Bolsonaro. Durante o dia, Mandetta dizia que os brasileiros deviam seguir as recomendações da OMS. À noite, Bolsonaro aparecia em pronunciamento oficial falando que o povo devia voltar às ruas.

Mandetta, que antes tentava amenizar dizendo que estava alinhado ao presidente mesmo evidentemente não estando, passou então a ser mais duro nas declarações e decidiu dar uma entrevista exclusiva para a Globo, emissora que Bolsonaro considera inimiga. O ex-ministro, que é correligionário de Rodrigo Maia, outro antagonista do presidente, cavou a sua demissão ao entrar no jogo da politicagem iniciada por Bolsonaro. De repente, ele virou o maior defensor do SUS e passou a deixar as críticas ao presidente cada vez menos veladas. Isso fez com que ele perdesse o apoio de militares e o cargo. Essa era provavelmente a intenção de Mandetta, que já parecia cansado de manter o jogo de aparências enquanto seu trabalho era boicotado pelo presidente.

Na ameaça de demissão que fez a Mandetta há duas semanas, Bolsonaro afirmou não ter “medo de usar a caneta, nem pavor”. Apesar dessa suposta demonstração de coragem, a caneta para demitir só funcionou depois do aval dos militares. Já o pavor de usá-la ficou evidente na hora de escolher o novo ministro. Explico. Considerado pelo Washington Post como “o pior líder do mundo” no combate ao coronavírus, Bolsonaro está encurralado como nunca esteve. A atuação no enfrentamento à pandemia aprofundou o seu isolamento interno e internacional. Pressionado pelos governadores, pela Câmara, pelos militares e pela opinião da maioria dos brasileiros — mais da metade acredita que ele mais atrapalha do que ajuda o combate à pandemia —, Bolsonaro foi obrigado a escolher outro ministro com perfil técnico. A escolha de um ministro olavista, que contrariasse as recomendações da OMS, poderia ser fatal para a continuidade do seu mandato.

Durante semanas, Mandetta não teve paz para trabalhar. O processo de troca foi arrastado pelo presidente, que promoveu uma guerra contra o ministro, paralisando o ministério na última semana. Todo esse boicote foi feito para depois se trocar seis por meia dúzia. A dúvida é: o quão disposto está Nelson Teich para manter a pantomima? Trabalhar se fiando pela ciência e, ao mesmo tempo, proteger a narrativa anti-científica do presidente é uma tarefa que poucos têm estômago para enfrentar. Mandetta bem que tentou por um tempo.

Hoje, os principais adversários políticos de Bolsonaro não são os políticos de oposição, mas os governadores e os outros poderes da União. O Estado de direito e a democracia federativa — chamados pela extrema direita de “sistema” e “establishment” — são hoje considerados inimigos do Planalto.

Em entrevista à CNN Brasil após a nomeação do ministro, Bolsonaro passou a atacar Rodrigo Maia e os governadores. Mais tarde, a Folha noticiou que Bolsonaro contou para parlamentares que está sendo vítima de um complô. Afirmou que recebeu um dossiê com informações da ABIN de que Rodrigo Maia, João Doria e parte dos ministros do STF estão tramando um golpe de estado contra ele. Ou seja, involuntariamente, Bolsonaro confessa que a agência de inteligência do governo está espionando outros poderes e um governador — um crime gravíssimo, passível de impeachment. Pode ser mais uma mentira para alimentar a paranoia da tropa, como também pode ser verdade. Bolsonaro já afirmou que apresentaria provas que as últimas eleições foram fraudadas, mas nunca as apresentou. Da mesma forma que se recusa a apresentar o resultado do seu exame para a covid-19, mesmo que pareça estar chapado de cloroquina em todas as últimas aparições públicas.

Os principais pontos de conflito entre Bolsonaro e Mandetta vão continuar existindo com o novo ministro.

Apesar de garantir que guiará as ações do ministério com base em critérios científicos, Nelson Teich fez um péssimo pronunciamento de estreia. Pouco objetivo, confuso, mas tentando transparecer alguma firmeza, o novo ministro da Saúde parecia estar assumindo o Ministério da Economia: “O desenvolvimento econômico arrasta outras coisas. Quanto mais se desenvolve, mais se investe em educação e saúde. (…) Discutir saúde e economia separado não dá. Ambos são complementares”. A gente já sabe o que está embutido nesse discurso: a relativização da vida humana. É o que Bolsonaro vem pregando em nome da salvação de uma economia que, não, não “estava decolando” antes da crise na saúde.

Apesar das falas alinhadas ao chefe, desde o início da pandemia o novo ministro tem dado declarações que enfureceriam Bolsonaro se fossem feitas hoje. Em um artigo, Teich afirmou que “o isolamento horizontal é uma estratégia que permite ganhar tempo para entender melhor a doença e para implantar medidas que permitam a retomada econômica do país”. Em outro, apontou a falsa dicotomia entre saúde e economia — a mesma que ele endossou durante a posse: “Esse tipo de problema (a falsa dicotomia entre saúde e economia) é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”.

Os principais pontos de conflito entre Bolsonaro e Mandetta vão continuar existindo com o novo ministro. Para Teich, a gestão de Mandetta vinha sendo “perfeita”: “Felizmente, apesar de todos os problemas, a condução até o momento foi perfeita. Pacientes e sociedade foram priorizados e medidas voltadas para o controle da doença foram tomadas”.

Para o presidente, a vida humana nunca aparece como um valor absoluto, sempre está acompanhada por alguma conjunção adversativa. Em pronunciamento feito há duas semanas, Bolsonaro afirmou: “A vida em primeiro lugar, MAS, sem emprego, a sociedade enfrentará um problema tão grave quanto a doença: a miséria”. Nessa semana, ele voltou à baila da relativização da vida humana: “A vida não tem preço, MAS economia e emprego tem que voltar à normalidade”. Durante a sua última live, justificou a saída de Mandetta ao dizer que sua gestão “era voltada quase exclusivamente para a questão da vida.”

Por enquanto, Bolsonaro poderá ficar mais aliviado. A popularidade de Mandetta, bem maior que a dele, já não é mais um problema. Agora ele tem um ministro menos popular, com o carisma de um pé de alface e que até agora tem se esforçado para não derrubar as narrativas fabricadas pelo “gabinete do ódio” ou do Planalto. Conter a disseminação do vírus não é o principal objetivo de Bolsonaro, mas, sim, a sua reeleição. Todas suas ações durante a pandemia, inclusive a troca de ministros, foram claramente calculadas visando alimentar narrativas eleitorais. A mudança no MS deixou isso bastante evidente: trocou seis por meia dúzia e mudou para continuar tudo como está. Não foi uma troca motivada pela incompetência técnica de Mandetta, mas pela ameaça política que ele passou a representar. O cálculo é eleitoral: tira um ministro popular e coloca um desconhecido que não faz parte da política e não tem as mesmas pretensões eleitorais de Mandetta.

Resta saber se Teich vai atingir o equilíbrio entre agradar o anticientificismo de Bolsonaro e cuidar da saúde da população se fiando pela ciência. Spoiler: não vai, porque isso é inatingível. Ou se toma o remédio receitado pelo médico ou o chazinho milagroso do curandeiro. Agora, é só aguardar pela próxima crise.





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