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A taxa de seroprevalência da COVID-19 – número de pessoas que através de um teste rápido acusaram a presença genética do coronavírus – em Cabo Verde é de 0,4% um número que a presidente do Instituto Nacional de Saúde Pública, Maria da Luz Lima, reconhece ser “muito baixo”. José Manuel Aguiar, antigo delegado de Saúde de São Vicente, defende que estudo realizado pelo INSP e pelo INE “faz apenas constatações daquilo que todo o mundo já sabe”.

“A prevalência é muito baixa. Mas mesmo em Espanha, com quem fizemos a comparação e que foi dos países mais afectados da Europa, teve uma prevalência de 5% e não correspondia bem ao número de casos”, explicou ao Expresso das Ilhas a presidente do Instituto Nacional de Saúde Pública, Maria da Luz Lima.

Segundo esta responsável, “há várias explicações” para esta baixa imunidade dos cabo-verdianos ao coronavírus e uma é que “ainda não está bem clara a questão da imunidade a este vírus. Ainda se está em estudo para perceber se a imunidade é de três meses ou se é de mais. Há muitos estudos a serem feitos nessa óptica”. Maria da Luz Lima, entrevistada pelo Expresso das Ilhas, diz acreditar que “a imunidade é baixa em Cabo Verde e que a leitura que deve tirar disto é que ainda há muita população susceptível e as medidas” de prevenção “têm de ser rigorosamente cumpridas para evitar uma segunda ou terceira vaga de COVID-19”.

No entanto, a baixa imunidade “não surpreendeu” os responsáveis do sector da saúde “porque vem na linha de outros países que já fizeram testes” deste género.

Países com uma taxa de prevalência maior, no entendimento da presidente do INSP, foram igualmente “mais afectados, tiveram muito mais óbitos”.

Outra ilação que se pode retirar é que sendo este “o primeiro estudo, feito numa fase média da epidemia” leva as autoridades de saúde a terem de fazer um outro estudo “comparativo para termos ideias mais claras sobre a prevalência”, apontou aquela responsável que disse ainda que os resultados apresentados neste estudo servem “para tirar lições, que temos de continuar com as medidas preventivas e a segunda é que numa segunda fase haja uma prevalência aumentada”.

Com grande parte dos países do mundo a prepararem-se para uma possível segunda vaga já a partir de Outubro, Maria da Luz Lima, admite que “neste momento, com a abertura das fronteiras internacionais, poderá haver a entrada de pessoas que depois se poderão infectar. Acreditamos que antes de Outubro poderá haver um ligeiro aumento. Mas também temos de lembrar que este é um vírus que, pelo menos no início se associou às baixas temperaturas. Provavelmente lá para os meses de Novembro ou Dezembro poderá haver uma segunda vaga. Mas é como sempre dizemos, o que hoje é verdade não o é amanhã. Por isso, nunca sabemos como vai ser a evolução dessa pandemia no nosso país”.

A presidente do INSP defende que “temos de estar sempre preparados porque temos a consciência que esse vírus não vai desaparecer nem hoje nem amanhã. Temos de estar preparados e em vigilância permanente para a detecção precoce, isolamento, medidas preventivas, evitar a propagação. São essas as medidas que têm de ser tomadas, não há muito mais a fazer”.

“Estudo superficial”

Para José Manuel Aguiar, médico e antigo Delegado de Saúde de São Vicente, o estudo “devia indicar com maior precisão qual é a nossa situação em termos de seroprevalência. Não indica. Faz apenas constatações daquilo que todo o mundo já sabe”.

“Quando se faz um questionário para aplicar na população e quer saber da distância social, da percentagem da utilização de máscaras e as perguntas são se se usa sempre, se se usa várias vezes, algumas vezes ou nunca… O que é isso de algumas vezes? Quantas vezes são algumas vezes? Uma vez por dia? Cinco? É a mesma máscara durante a semana?”, reforça. “Não há precisão nisto”, reforça.

Em conversa telefónica com o Expresso das Ilhas este médico diz que “há muita falta de informação” no estudo que permita “basear a minha opinião”. Mas, ainda assim, destaca “alguns aspectos”. “O primeiro é que o estudo confirma aquilo que já era uma evidência e determinou uma série de medidas preconizadas pelo governo no sentido do cidadão cumprir numa tentativa de conter a propagação do vírus”.

No entanto, defende, “isto são questões empíricas e, além disso, já comprovadas pela experiência de outros países. Aí nada de novo”.

Para José Manuel Aguiar “fica-se um pouco baralhado quando se apresenta a relação de casos positivos que abrangem a Ribeira Brava, São Domingos e Maio mas não se faz referência nenhuma a São Vicente e Santo Antão, para além de Sal e Praia. Faz confusão porque as ilhas que já tiveram casos deviam ser contempladas em termos de números”.

Na opinião deste clínico para além do que “já vinha sendo conhecido de forma empírica ou por experiência de outros países” é necessário ter em conta que o cumprimento das medidas preconizadas de prevenção da disseminação da doença “que na prática se constata que está muito aquém do desejado, o que aumenta consideravelmente o risco de a infecção se espalhar, o estudo mostra que, em relação ao distanciamento social, somando as pessoas que cumprem sempre ou quase sempre, atingiríamos a cifra de quase 87% o que nos daria uma margem de conforto elevada e que na prática não existe”.

O estudo e os seus dados

A taxa de prevalência já é conhecida: 0,4% dos inquiridos revelaram, depois dos testes rápidos, terem tido contacto com o coronavírus.

Ao todo foram inquiridas 5348 pessoas com idades entre os 10 e os 80 anos residentes em todos os concelhos de Cabo Verde sendo que 11% residiam na Praia e 7% em São Vicente. Em todos os outros 20 municípios foram também realizados testes para apurar a prevalência do vírus.

A maioria dos inquiridos, refere o documento elaborado pelo INSP com a colaboração do INE, são mulheres (57%). Além disso, as pessoas ouvidas pelo INE são maioritariamente solteiras e com um grau médio ou secundário de estudos.

No que respeita às medidas de prevenção da disseminação da doença, quase todos os inquiridos (98,8%) referiram que lavam as mãos e 74,6% asseguraram usar máscara. No entanto, estes números caem para 65,6% quando os inquiridos são questionados se lavam as mãos várias vezes ao dia e para 68,5% relativamente à utilização permanente ou regular de máscaras de protecção.

Ainda no que respeita ao uso de máscaras, o estudo apurou que 70,3% das pessoas usa máscaras não certificadas pelos serviços públicos.

Maior prevalência no Sal

O estudo elaborado pelo INSP e pelo INE mostra que a maior prevalência do vírus foi encontrada no Sal onde 67% dos inquiridos deram positivo no teste rápido. Maio e Praia são os outros concelhos onde a prevalência serológica é mais elevada com 14% e 9,8% respectivamente.

“Dos casos positivos: 86% são do sexo feminino, correspondendo a uma incidência cumulativa de 0,6% na população feminina”, já entre “os homens esse indicador é de 0,1%”.

A concluir, o estudo aponta que a maioria da população cabo-verdiana “é seronegativa para a infecção pelo SARSCOV-2 (prevalência de 0.4%). Isso pode significar que ainda há muita população susceptível, podendo acontecer outras epidemias associadas ao novo coronavírus num futuro curto” e que “factores sociais e comportamentais assim como a falta de rigor na aplicação das mediadas preventivas por parte da população têm contribuído para o desenvolvimento desta pandemia em Cabo Verde”.

A “luta possível”

Para o antigo secretário executivo da CCS-SIDA, José António Reis, a luta contra a COVID-19 “tem decorrido dentro da normalidade possível”. Isto porque, como explicou ao Expresso das Ilhas, “numa epidemia com as características da COVID-19, é extremamente difícil ter o controlo absoluto da situação. Há diversas variáveis incontroláveis que resultam de algum desconhecimento do agente que provoca a contaminação e, em consequência, muitas dificuldades para quem queira lutar e controlar a disseminação do vírus”.

Apesar de tudo, entende José António Reis, “a resposta nacional foi e tem sido positiva”.

“Contudo, em matéria de testes temos estado a evoluir, mas ainda não atingimos a capacidade de resposta desejável. O tempo que decorre entre a colheita de amostras e a revelação de resultados, em alguns casos, demoram para além do aceitável. Essa demora tem impacto negativo na investigação epidemiológica, uma vez que se perdem dias para se iniciar a procura activa de contactos, o que, face a um vírus com o potencial de contágio como a COVID-19, fica-se sempre a correr atrás e, muitas vezes, perde-se o rasto dos focos de contágio”, explica.

Para José António Reis é, assim, necessário “um investimento maior na capacidade diagnóstica. Somos um país arquipelágico e infelizmente a ligação inter-ilhas, ainda, não é o ideal. Numa situação de emergência pandémica, a ausência de capacidade diagnóstica local poderá ser um factor que não facilitará a resposta rápida, e isso poderá ter um efeito negativo na investigação epidemiológica e no diagnóstico precoce, elementos fundamentais no combate a qualquer epidemia”.

A terminar, questionado sobre uma possível segunda vaga da doença que possa surgir em Cabo Verde com a reabertura das fronteiras internacionais ou com o início do ano lectivo, José António Reis explica que nos dias de hoje “com o conhecimento que já temos, sobretudo a que decorre da experiencia observada em outros países, não poderemos cometer erros que possam abrir as portas a segunda vaga”.

No que respeita ao próximo ano lectivo, Reis defende que “é necessário um plano específico, por escola, que tenha em devida conta a situação epidemiológica de cada zona onde a mesma se encontra inserida. Cada escola deverá ter o seu plano de contingência com procedimentos rígidos e mecanismo de seguimento e controlo de maneira a evitar que a escola seja foco de contaminação”.

Já quanto à reabertura das fronteiras a voos internacionais “o que alguns países estão a fazer pode servir-nos de exemplo”.

“A exigência de apresentação de resultado de teste, realizado, pelo menos, com 72 horas de antecedência ou a realização de teste nos aeroportos quando se chega ao país de destino sem o respectivo resultado de teste, constitui um instrumento importante na identificação e contenção da propagação do vírus”, explica.

A concluir, defende, “Cabo Verde não pode, em circunstância alguma, dispensar do controlo sanitário aos que entram no país sob pena de se renunciar a exercer vigilância epidemiológica sobre um vector importante da disseminação do vírus. Não haverá uma segunda vaga se continuarmos a trabalhar com a planificação necessária, com a prudência que a situação requer e com a sabedoria e ciência, conscientes de que não estamos sozinhos no mundo”. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 975 de 5 de Agosto de 2020.

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