Mais de dois terços dos museus do país que responderam a um inquérito sobre a adaptação à pandemia de covid-19 dizem prever dificuldades financeiras devido à diminuição drástica de visitantes, indicam os resultados a que a Lusa teve acesso.

O inquérito foi realizado pela comissão nacional do Conselho Internacional de Museus (ICOM, em inglês), entre 24 de Abril e 18 de Junho –​ período que incluiu tanto o encerramento como a reabertura, autorizada desde 18 de Maio –, e foi enviado a todas as instituições museológicas no território nacional.

A falta de funcionários e a avançada média de idades das equipas dos museus, a quebra acentuada de visitantes, sobretudo estrangeiros, e a consequente diminuição de receitas são as principais preocupações manifestadas pelas entidades que responderam ao inquérito, com 70,3% destas a preverem dificuldades financeiras

A análise das respostas reunidas “permite traçar um quadro da realidade museológica nacional que reforça as grandes preocupações que têm vindo a ser expressas, agora exacerbadas pela situação inesperada e extrema que as sociedades a nível planetário vivem”, conclui o comité do ICOM-Portugal.

Contactada pela agência Lusa sobre as conclusões do inquérito, a presidente do ICOM-Portugal, Maria de Jesus Monge, destacou que, à luz dos testemunhos enviados, “é notório que se agravaram as situações problemáticas, e a preocupação em adaptar-se a uma nova realidade com as várias restrições, em particular com os públicos seniores e os grupos escolares”.

“Não é só o dinheiro que faz falta, é a atenção às entidades e a mobilização da opinião pública”, sublinha a responsável nacional desta organização não-governamental, criada em 1946, dedicada à preservação e divulgação do património natural e cultural mundial, tangível e intangível, através de orientações de boas práticas.

Embora as respostas não tenham sido muitas (deram feedback 38 instituições), o diagnóstico “já é representativo do espectro dos museus do país”, avalia a presidente do ICOM-Portugal sobre a adesão, que “corresponde substancialmente à distribuição de instituições museológicas no território nacional: 35% na zona de Lisboa, 32,4% no Norte, 13,5% no Centro, 11% no Sul e 8% no arquipélago da Madeira. Infelizmente não houve nenhuma resposta do arquipélago dos Açores”, acrescenta.

O documento aponta que 94,6% dos museus que responderam esperam que a programação seja alterada devido à pandemia covid-19, com uma expectativa de 80% na possibilidade de recalendarização de exposições e actividades do serviço educativo.

Maria de Jesus Monge comentou à Lusa que “todas as falhas que existiam antes vieram a agravar-se, nomeadamente a falta de condições e de recursos humanos nos museus da tutela do Estado”.

“As autarquias têm uma maior capacidade e disponibilidade para gerir as suas equipas, deslocalizar pessoas de uns serviços para outros, e cobrir as falhas onde elas existem”, destrinçou.

O plano para reabertura estava elaborado em 51,4% das situações, e 89,5% consideravam ter condições para a reabertura, apesar de algumas condicionantes relacionadas com a estrutura das equipas: funcionários com necessidade de assistência à família (62,2%), em grupos de risco (48,6%) ou com idade superior a 60 anos em 48,6%, um indicador do envelhecimento dos recursos humanos nos museus do país.

Os resultados do inquérito revelam ainda que as equipas eram compostas por menos de dez pessoas num terço dos museus, até 20 pessoas noutro terço, e as restantes variam substancialmente entre 21 e 69 profissionais.

Em 89% dos casos as equipas não sofreram alteração, mas nos restantes registaram-se casos de lay-off e de passagem à reforma.

Em 97,3% dos museus estiveram asseguradas a conservação e a segurança, com recurso aos técnicos da instituição, embora alguns refiram que essas responsabilidades estiveram a cargo de empresas externas, a nível de limpeza e segurança. Em vários casos estas tarefas foram garantidas pela direcção, indica o inquérito.

Enquanto estiveram encerrados ao público, os museus tentaram manter o contacto nas plataformas digitais, através dos sites próprios e das redes sociais: “Tudo o que teve a ver com o digital teve um aumento exponencial e veio para ficar. Mas não substitui o contacto pessoal”.

As respostas obtidas “demonstram a existência de uma importante rede de competência técnica instalada, consciente do seu papel no seio da sociedade e empenhada em garantir que os museus cumprem a sua missão”, mesmo nas actuais condições adversas.

Este quadro geral, que o ICOM-Portugal não considera dramático, globalmente, comparado com o que se vive noutros países, “apresenta, contudo, uma grande fragilidade, expressa na pequenez das equipas, na precariedade face a situações imprevistas e, escondida na frieza dos números, a existência de um grande número de profissionais sem vínculo permanente que são os que mais sofrem quando a programação é brutalmente afectada”.

As incógnitas são muitas, e os profissionais elencaram as principais: Como vão ser afectados os orçamentos? Como reagirão as tutelas face à grande diminuição de visitantes e, consequentemente, de recursos financeiros?

Para Maria de Jesus Monge, “este é o momento para os museus se virarem para as comunidades locais, para os visitantes nacionais, sobretudo os públicos infanto-juvenis e seniores, dando um contributo na área da educação”, sugere, relativamente aos desafios para o futuro.



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