Enquanto continua a busca incessante de uma vacina contra o novo coronavírus por parte da comunidade científica, inúmeros estudos realizados nos últimos meses e a observação clínica dos profissionais médicos ainda não conseguem afirmar se as sequelas do SARSCoV-2 são simplesmente temporárias ou afinal permanentes, informa um artigo publicado pela BBC

A verdade é que determinados sintomas podem permanecer – não só nos indivíduos que padeceram de quadros mais severos – e que, além dos pulmões, o novo coronavírus pode condicionar o funcionamento dos rins, coração, intestino, sistema vascular e cérebro.

Respiração afetada

O médico pneumologista Gustavo Prado, do hospital Alemão Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Brasil, revela que tem recebido queixumes de um volume significativo de doentes que experienciaram quadros moderados de Covid-19 e que afirmam continuar a sofrer de cansaço excessivo e falta de ar sem motivo aparente. 

Um estudo realizado logo em abril em pacientes que haviam recebido alta na China apontava que a diminuição da função pulmonar era uma das principais consequências mesmo entre quem não havia sofrido gravemente da doença.

Entretanto, uma outra pesquisa publicada no Journal of the American Medical Association (JAMA) identificou que, entre 143 pacientes analisados na Itália, somente 12,6% haviam sido internados nos cuidados intensivos, porém 87,4% descreviam a continuação teimosa de pelo menos um sintoma, nomeadamente de fadiga e falta de ar, mais de dois meses após terem alta.

O caso da fibrose pulmonar

Nos episódios mais severos, as sequelas permanentes são uma possibilidade bem real: destancando-se a fibrose pulmonar, uma doença crónica caracterizada pela formação de cicatrizes no tecido pulmonar.

“A cicatriz preenche o espaço, mas não tem a mesma elasticidade, as mesmas características do tecido original”, elucida Prado à BBC.

Dessa forma, o pulmão expande menos, ou mais dificilmente, resultando numa perda de eficácia nas trocas gasosas. Desta diminuição da habilidade respiratória sucede-se a falta de ar e o cansaço crónico.

Síndrome pós cuidados intensivos

O longo período de internamento no hospital aumenta igualmente as hipóteses de um outro problema grave – a síndrome pós cuidados intensivos.

Os sintomas da condição incluem perda de força muscular, modificações na sensibilidade e da força motora por disfunção dos nervos, depressão, ansiedade, alterações cognitivas, deterioração da memória e de raciocínio.

‘Marco zero’

Conforme explica a BBC, os pulmões são considerados um ‘marco zero’ para novo coronavírus. Ou seja, ao instalar-se no pulmão, o SARSCoV-2 continua o seu percurso pelo corpo, causando estragos noutros órgãos

Um artigo publicado na revista Science destacava que um possível sinalizador das zonas mais vulneráveis do corpo seria aquelas abundantes em receptores ECA2 (enzima conversora da angiotensina 2). Tendo a funcionalidade de regular a pressão arterial, estas proteínas localizadas à superfície da célula são utilizadas como porta de entrada pelo vírus, que utiliza a estrutura celular para se reproduzir e propagar pelo organismo.

Além dos pulmões, o ECA2 é encontrado em órgãos como o coração, o intestino e os rins, que sofrem lesões significativas em doentes em estado mais grave.

“Por isso dizemos que a Covid-19 é uma doença sistémica, e não só respiratória”, diz a pneumologista e investigadora da Fiocruz Margareth Dalcolmo.

Rins e coração

Uma pesquisa realizada na Alemanha concluiu que, entre 100 indivíduos recuperados, 78% apresentaram alguma anomalia no coração mais de dois meses após ter recuperado da Covid-19. Sendo que a maioria (67%) havia padecido de uma variante moderada da patologia e não havia sido hospitalizada.

Relativamente aos rins, as descobertas sublinharam uma ocorrência elevada de falência entre os casos mais graves da doença.

Um outro estudo com dados de pacientes internados na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, entre 1 de março e 5 de abril apontoy que, de 5.449, mais de um terço, 1.993, desenvolveu insuficiência renal aguda.

Cérebro

Investigadores têm identificado a incidência de vários sintomas neurológicos em doentes recuperados, incluindo confusão mental, dificuldades cognitivas e delírio.

O neurologista Jaderson Costa da Costa conta à BBC que, entre os casos mais graves atendidos pela equipa no Hospital São Lucas, em Porto Alegre, no Brasil, foram registadas convulsões, casos de síndrome de GuillainBarré e de encefalite, a inflamação do parênquima do encéfalo.

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