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Carregamento de bananas no Projeto Jaba: ponto de partida de 600 caminhes que saem por semana rumo a algumas das metrpoles com maior disseminao do coronavrus (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.a press)

Jaba e Janaba – Se dos profissionais de sade depende o bem-estar e a recuperao de pacientes no atual quadro de pandemia do novo coronavrus, de uma outra categoria muito menos visvel depende o oxignio que permite que a sociedade e a economia continuem respirando, ainda que com dificuldade.

E, da mesma forma que mdicos e enfermeiros, eles no puderam se manter em isolamento – e tambm convivem no dia a dia com o risco de contgio, por manter contato dirio com milhares de pessoas Brasil afora.

Trabalhadores
do setor de transportes tm lutado para cruzar ruas ou estradas do pas levando mercadorias e pessoas, sempre com a ameaa de contaminao pela COVID-19 no retrovisor, ou mesmo com o risco de transportar o vrus entre diferentes municpios e estados. 

Um desafio encarado diariamente tanto por transportadores de cargas quanto de passageiros, como taxistas, motoristas de nibus, de van ou de aplicativos. Mais ainda para os condutores de ambulncias, que tm contato direto com pacientes com suspeita ou confirmao da COVID-19.

Para ouvir pessoas que do duro frente ao volante, o Estado de Minas foi a campo e conferiu de perto como eles esto encarando a pandemia e os riscos direta ou indiretamente associados a ela.

Descobriu profissionais que sofrem com preconceito de quem teme contato com eles e que se cercam de cuidados, at mesmo para no contaminar familiares. Encontrou trabalhadores que se sentem dando carona para o medo e outros que fizeram da proteo da boleia sua rea de isolamento.

Ao ponto de haver entre eles quem tenha visto a ameaa se transformar em contgio real, e querer se manter em quarentena na cabine do caminho, na beira da estrada, bem distante dos parentes.

Essas e outras histrias sero contadas a partir de hoje, em srie de reportagens sobre a vulnerabilidade dos profissionais de transporte em tempos de pandemia. Entre esses brasileiros esto caminhoneiros que somam cerca de 3 milhes de trabalhadores, entre autnomos e empregados, de acordo com a Confederao Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres.

Ao mesmo tempo em que exercem papel determinante na vida e na economia do pas, eles testemunham problemas como a pobreza, violncia e elevado nmero de acidentes de trnsito e encaram infortnios como longas jornadas, pssimas condies de descanso, alimentao ruim e riscos de assalto.

Se a vida j era tensa, agora a apreenso aumentou, com a exigncia de cuidados para se prevenir e para que no se transformem em “transportadores do coronavrus”.

A Carteira Nacional de Habilitao e o documento do veculo no so mais os nicos itens obrigatrios na cabine. Agora, os caminhoneiros ganharam a companhia da mscara, do lcool em gel e tambm da ansiedade e do medo do novo coronavrus.

Transporte de frutas e tambm de apreenso

Uma das grandes encruzilhadas onde esses trabalhadores se encontram fica no Norte de Minas, devido ao escoamento das frutas produzidas nos projetos de irrigao do Jaba, no municpio homnimo, e do Gorutuba, entre Janaba e Nova Porteirinha.

O risco de contgio e disseminao do vrus se agrava devido aos pontos para onde os caminhoneiros se deslocam constantemente, incluindo os grandes centros do pas, exatamente onde a pandemia mais se alastrou e mais ceifou vidas.

Segundo a Associao dos Fruticultores do Norte de Minas (Abanorte), semanalmente saem da regio cerca de 600 caminhes carregados de banana, a maioria tendo como destino Belo Horizonte, So Paulo e Rio de Janeiro.

Um fator ainda mais preocupante que a maior parte das cargas descarregada nas centrais de abastecimento dessas metrpoles, pontos de grande aglomerao de pessoas.

Transportadores de frutas revelam o temor e as mudanas de hbitos, ficando separados, por exemplo, dos carregadores, e passando maior tempo isolados nas cabines. “No temos mais aquela liberdade de ficar junto de outras pessoas, pois todos precisam se proteger. Acabaram aquelas ‘farrinhas’ que a gente tinha antes”, conta o caminhoneiro Ademar Aparecido de Jesus, de 45 anos, com oito de profisso, ao falar da nova realidade.

Ademar mora em Janaba e duas vezes por semana, em mdia, transporta banana do Projeto Jaba para a Central de Abastecimento do Rio de Janeiro (Ceasa-RJ), na capital fluminense, que ainda tem elevada incidncia de casos da doena respiratria. “No princpio, foi um susto. Fiquei muito preocupado com minha famlia. Passei 15 dias sem ver meus pais”, relata Ademar.

Ele se recorda tambm das dificuldades enfrentadas no incio do isolamento social, quando foram fechados os estabelecimentos na beira das estradas, incluindo restaurantes e pontos de parada. “Tivemos que cozinhar junto do caminho. At para conseguir gua ficou mais complicado”, destaca Ademar.

Mesmo se cercando de todos os cuidados, ele conta que no retorno de cada viagem o corao aperta, com o receio de carregar o vrus e contaminar familiares. Alm da  mulher e dos trs filhos, uma grande preocupao com os pais, que integram o grupo de risco – o pai Domingos Romualdo, de 75; e a me Claide Maria, de 68, tambm moradores de Janaba.

A apreenso aumentou ainda mais depois que duas irms foram contagiadas pela COVID-19, ambas moradoras de Uberlndia, no Tringulo Mineiro, cidade que s perde em nmero de casos para Belo Horizonte. “Mas, graas a Deus, elas foram curadas”, comemora.

Doena, quarentena e viagens perdidas

O caminhoneiro A., morador de Montes Claros, no Norte de Minas, j conta 38 dos seus 57 anos nas estradas Brasil afora, fazendo do servio tambm um prazer. Mas, em uma viagem no interior de Gois, na primeira quinzena de maio, percebeu que algo estava errado. “Senti muito cansao ao tirar as lonas da carreta. Depois, senti um pouco de dificuldade para respirar. A veio o diagnstico: fui contaminado pelo coronavrus”, relata.

“No tenho a mnima ideia sobre como e onde me contaminei, pois estava me cuidando, usando mscaras, luvas e lcool em gel”, afirma o caminhoneiro, que no chegou a ficar internado, mas teve de permanecer 17 dias em isolamento at se recuperar.

Ele conta que o diagnstico veio em um exame mdico depois de voltar para a casa. Disse que gosta tanto da estrada que queria passar essa fase de isolamento na cabine do caminho, no estacionamento de um posto de combustveis, na beira da estrada. “Mas a famlia no aceitou e me levou para casa”, afirma.

O caminhoneiro relata que, aps a doena, sofreu preconceito, a ponto de perder fretes de duas cargas. “Depois de ficar sabendo que eu tive a doena, o fornecedor passou o servio para outro prestador de transporte”, lamenta.

“No me chateei com isso. Todos tm medo de se contaminar e, com o tempo, isso passa”, diz o motorista. Mesmo assim, pediu anonimato, para se resguardar de novos constrangimentos e prejuzos. “A discriminao muito grande”, avalia.

Ele afirma que, mesmo depois de recuperado, ainda sente efeitos colaterais da doena. “Estou rodando depois de ser liberado pelos mdicos. Mas ainda sinto um pouco de cansao, tosse, dores musculares e, s vezes, garganta seca”, descreve, certo de que a categoria est sempre exposta contaminao do coronavrus.

Caminhoneiros como Ademar Aparecido de Jesus passaram por mudan
Caminhoneiros como Ademar Aparecido de Jesus passaram por mudana de rotina e enfrentaram at problemas para conseguir gua e comida nas viagens (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.a press)

Diante dos riscos da COVID-19, os trabalhadores do transporte viram a rotina mudar tambm nos locais em que carregam suas mercadorias. Nos projetos de irrigao do Gorutuba e Jaba, no Norte de Minas, foi adotada uma srie de medidas contra transmisso do coronavrus entre os trabalhadores das reas de plantio, incluindo o uso de mscaras e de outros equipamentos de proteo individual (EPIs). Uma delas o distanciamento entre os caminhoneiros e outros funcionrios, inclusive durante as refeies.

Em todas as reas de produo de banana, os cuidados em relao aos transportadores mereceram ateno maior ainda, j que so eles que viajam para os lugares de maior incidncia do coronavrus. “Fazemos todo o esforo para evitar que os caminhoneiros sejam vetores da COVID-19 e tragam o vrus para os demais colaboradores”, afirma Rodolfo Rebello, diretor-administrativo da Associao dos Fruticultores do Norte de Minas (Abanorte).

Alm da orientao para que motoristas mantenham distncia dos demais trabalhadores, tem sido oferecido material de higienizao para os funcionrios.

Rebello lembra que, mesmo que no tenha interrompido a produo e o transporte em nenhum  momento, o setor de frutas tambm foi atingido pelo isolamento social e pela pandemia, sofrendo queda de 30% nas vendas, devido ao fechamento de pequenos pontos de comrcio e paralisao das atividades dos ambulantes, alm da interrupo das feiras livres.

Rodolfo Rebello, da Associa
Rodolfo Rebello, da Associao dos Fruticultores do Norte de Minas, afirma que so tomados cuidados para que motoristas no se transformem em vetores da COVID-19 (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.a press)

Testes dirios e temperatura

No Jaba, a  equipe do Estado de Minas tambm visitou uma rea da Brasnica, do empresrio Yuji Yamada, maior produtor individual de banana do pas. No local, onde atuam 230 funcionrios, so adotadas diversas edidas preventivas, como a limitao da ocupao dos nibus que transportam os trabalhadores e a higienizao constante dos veculos. Os operrios transportados tambm so submetidos diariamente a testes de temperatura.

A Brasnica emprega um grande nmero de motoristas, para uma frota de 170 caminhes que leva a fruta para as unidades da empresa nas centrais de abastecimento em diferentes partes do territrio nacional.

Por causa da pandemia do novo coronavrus, na rea da empresa no projeto Jaba os motoristas so orientados a permanecer em um alojamento, a uma certa distncia da rea de seleo e embalagem da banana, e tambm distanciados dos demais trabalhadores.

A separao bem aceita por caminhoneiros como Ado Vieira de Souza, de 34 anos, morador de Janaba e motorista da Brasnica. “Temos que tomar muito cuidado porque esse vrus no brincadeira”, afirma, ao salientar que concordou plenamente com o distanciamento de outros trabalhadores.

Ado disse que usa mscara e lcool em gel e que ele prprio evita contato com outras pessoas ao descarregar. “Fico o tempo todo dentro da cabine do caminho”, garante.

Emerson da Silveira Marques afirma que at
Emerson da Silveira Marques afirma que at mesmo em alguns restaurantes o tratamento aos transportadores mudou (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.a press)

Preconceito nos pontos 

O caminhoneiro Emerson da Silveira Marques, de 29 anos, de Janaba, que transporta banana do Norte de Minas para o Rio de Janeiro, revela outra dificuldade que a categoria conheceu diante do avano da pandemia da COVID-19: a discriminao. “Sofremos bastante preconceito. Dependendo do restaurante a que chegamos, o atendimento bem diferenciado do que era antes da pandemia”, afirma.

No entendimento do transportador, que tambm fez da cabine do caminho uma espcie de escudo, isso ocorre porque h quem ache que os condutores tm mais chances de propagar o coronavrus, por terem entre seus destinos lugares com maior disseminao da doena.

Mas ele revela que, at por serem seus familiares os mais vulnerveis, se cerca de todos os cuidados, cuida da limpeza e isolamento das roupas que usa, assim como do uso obrigatrio de mscaras e de lcool em gel.

O motorista de caminho Tiago Peraoli trabalha com a mesma carga e com um destino igualmente preocupante: a Central de Abastecimento de So Paulo (Ceasesp) e Jundia (SP), onde mora. Ele conta que, assim que surgiu a pandemia, percebeu at entre amigos e parentes o receio de se aproximar dele, por causa do medo do coronavirus.

“Ficaram com medo de que eu pudesse passar a doena para eles, por causa dos contatos meus com outras pessoas na estrada. A, falei que tenho mais contato com pessoas no bairro onde moro do que na estrada, onde quase zero o contato”, afirma o motorista. “Agora, depois que expliquei a situao, est tudo normal”, assegura.

Por outro lado, ele informa que adotou muitos cuidados com os seus familiares, especialmente com o av, que tem 87 anos. “Fiquei trs meses sem v-lo”, conta Tiago, que casado e pai de um filho.

O transportador sabe que precisa tomar muito cuidado por causa dos riscos que enfrenta, principalmente, na capital paulista. “Em Jundia tranquilo. Mas na Ceasesp tem muita aglomerao e no tem muito uso de mscara. um povo mais bruto e mais difcil de lidar, que no aceita muito essa precauo de mscaras, essas coisas. Chego l, entrego a nota, higienizo as mos e fico isolado dentro da cabine, descansando enquanto a mercadoria descarregada”, afirma. Por cuidado, tambm na boleia que faz as refeies.

Precaues semelhantes so adotadas pelo caminhoneiro Givanildo Ferreira da Silva, de 43, morador de Paraopeba, na regio Central do estado, que tambm carrega no Norte de Minas com destino a centrais de abastecimento como a Ceasa-MG, em Contagem, na Regio Metropolitana de BH.

“Infelizmente, essa doena est chegando a todos os lugares. Estou sempre lavando as mos e evitando aglomeraes. Tomo o mximo de cuidado. Uso mscaras e no aperto as mos e no abrao mais ningum. No quero pegar o vrus, pois tenho filho pequeno para criar”, diz Givanildo, pai de Felipe, de 6 anos.

O caminhoneiro Marcelo Silva, de 49, natural de Braslia e “puxa” banana de Janaba para o Rio de Janeiro. Ele conta que, alm das dificuldades, dos cuidados e dos medos, a categoria vem enfrentando um outro inimigo.

Autnomo
e pai de quatro filhos, ele reclama que o mercado teve uma forte queda aps a crise do coronavrus. E lamenta no poder parar, como vrios trabalhadores, durante a pandemia. “No tem jeito. A gente precisa trabalhar, porque tem que pagar a prestao do caminho e as despesas do dia a dia.”

E, nos deslocamentos pelo pas durante a pandemia, o vrus est longe de ser a nica preocupao. “O ndice de roubos nas estradas aumentou muito. Tem muita gente desempregada”, constata o motorista Emerson da Silveira Marques.

Tiago Pera
Tiago Peraoli conta que amigos e parentes
tambm evitaram contato no incio, por
medo da doena
(foto: Luiz Ribeiro/EM/D.a press)

Trabalhadores de
Trabalhadores de reas de fruticultura irrigada adotaram medidas de proteo e tiveram contato limitado com transportadores (foto: Luiz Ribeiro/EM/D.a press)

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