Pesquisas ajudam a esclarecer melhor os efeitos do coronavrus em pacientes infantis e, com o entendimento do mecanismo da doena, intensificar medidas de preveno (foto: Ander Gillenea/AFP)

Aos poucos, especialistas da rea mdica conseguem entender melhor os efeitos do novo coronavrus no organismo humano, principalmente em perfis distintos de pacientes. Em um estudo publicado na revista Nature Medicine, cientistas ingleses mostram dados que apontam para a ocorrncia da sndrome inflamatria multissistmica (MIS-C) em crianas infectadas pelo Sars-CoV-2. Os pesquisadores explicam que o problema de sade difere da sndrome de Kawasaki, outra enfermidade apontada como possvel consequncia da infeco pelo novo coronavrus em indivduos mais jovens, que, aparentemente, so menos acometidos pela COVID-19.

No estudo, os cientistas destacam que pesquisas recentes tm apontado uma nova sndrome clnica em crianas infectadas pelo Sars-CoV-2, responsvel por sintomas como erupo cutnea, dor abdominal e febre, tambm sinais da COVID-19. “Antes, pensava-se que essas caractersticas seriam apenas um agravamento da infeco. Mas vimos que ela pode ser considerada uma enfermidade j conhecida, definida como sndrome inflamatria multissistmica em crianas (MIS-C)”, destacaram os autores do artigo, liderados por Manu Shankar-Hari, pesquisador do Kings College London.

 

No trabalho, os pesquisadores mostraram o perfil imunolgico e a caracterizao clnica detalhada de 25 pacientes (15 meninos e 10 meninas), com idade entre 7 e 14 anos e o diagnstico de MIS-C. Os autores descobriram que 17 crianas eram soropositivas para os anticorpos do Sars-CoV-2. Das oito com teste soronegativo, seis haviam tido sintomas da infeco por COVID-19, estiveram em contato prximo com algum que teve a nova doena ou tinham um dos pais trabalhando na rea da sade. “Os resultados sugerem que a MIS-C, que uma doena imunopatognica distinta da COVID-19, pode estar associada infeco anterior pelo Sars-CoV-2”, afirmam os especialistas.

 

Os pesquisadores tambm observaram que 18 crianas apresentaram sintomas gastrointestinais e sete tinham evidncias radiolgicas de pneumonia. Outras sete sofreram dilatao da artria coronria ou aneurisma. “Um ponto importante visto que a soropositividade para a COVID-19 estava associada maior prevalncia de sintomas gastrointestinais e dilatao da artria coronria”, enfatizam.

 

Os cientistas constataram ainda que, na fase aguda da doena, os pacientes apresentaram nveis elevados de citocinas (protenas liberadas pelas clulas do sistema imunolgico), uma atividade tambm vista em adultos com COVID-19. Durante o estgio agudo da MIS-C, o nmero total de clulas B e tipos diferentes de clulas T, ambas molculas de defesa do corpo, diminuram. “Declnios semelhantes foram observados nas respostas imunes de adultos com o novo coronavrus. Esses dados sugerem que as respostas imunolgicas em pacientes com MIS-C e em pacientes adultos com o Sars-CoV-2 compartilham algumas semelhanas.”

Diferenciando

Natasha Slhessarenko, pediatra e patologista clnica do laboratrio Exame, em Braslia, destaca que o estudo ingls tambm ajuda a entender melhor o comportamento do coronavrus em crianas. “No comeo, achvamos que elas no tinham casos graves da doena, mas, em abril, comeamos a ver sinais de um problema inflamatrio peditrico, a sndrome de Kawasaki, e tivemos a suspeita de que essa enfermidade poderia estar relacionada ao novo coronavrus”, detalhou. “Porm, novos estudos mostram que os sintomas que essas crianas infectadas apresentam so mais semelhantes aos da MIS-C.”

 

A mdica explica que o estudo ingls, apesar de ter sido feito em um grupo de pacientes pequenos, mostra dados que ajudam a entender melhor essa diferenciao. “Eles viram, por exemplo, que esses sintomas atingiram crianas maiores. Na Kawasaki, temos crianas bem menores. Outro ponto foi a dor abdominal, que um sintoma da MIS-C apenas”, comparou. No artigo, os autores do estudo indicam que o pico da incidncia da sndrome de Kawasaki foi entre 1 e 3 anos, a de MIS-C, entre 7 e 14 anos, e indicam outras diferenciaes entre as doenas. “Sintomas gastrointestinais e disfuno miocrdica so incomuns na doena de Kawasaki, sendo que ambos foram mais prevalentes em nossos casos de MIS-C soropositivos”, escreveram.

 

Segundo Slhessarenko, as semelhanas relacionadas ao comportamento do sistema imune das crianas e dos adultos em relao ao Sars-CoV-2 observadas no estudo tambm corroboram outra suspeita levantada por especialistas. “Essas similaridades nos mostram que essa sndrome nas crianas seria semelhante fase trs da COVID-19 em adultos, chamada de resposta hiperinflamatria, quando ocorre a chamada tempestade de citocinas, algo de que j se tinham desconfianas”, detalhou.

 

Para a mdica, pesquisas maiores ajudaro a esclarecer melhor os efeitos do coronavrus em pacientes infantis. “S poderemos esclarecer melhor esse tema com mais pesquisa, e, como os autores desse estudo tambm ressaltam, com testes genticos, que podem ser a chave para definir por que algumas pessoas tm reaes mais graves enfermidade e outras no.”

 

Carga viral dos pequenos maior

 

(foto: Fernando Fraz
(foto: Fernando Frazo/Agncia Brasil
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Os casos raros de crianas com COVID-19 fizeram os mdicos acreditarem,  por um bom tempo, que elas seriam pouco suscetveis ao Sars-CoV-2. Contudo, o maior estudo j realizado sobre o tema, publicado no Journal of Pediatrics, mostra que, embora adoeam menos do que os mais velhos, elas so infectadas igualmente. O mais grave que a pesquisa identificou em pacientes peditricos e jovens – inclusive os assintomticos –, carga viral significativamente  maior do que a detectada em adultos internados nas unidades de terapia intensiva (UTIs), em estado crtico.

 

De acordo com os pesquisadores, que disseram ter ficado surpreendidos com o resultado, isso faz com que as crianas e os jovens adultos sejam “transmissores silenciosos” da COVID-19. Embora desde o incio da pandemia tenha sido alertado que eles poderiam espalhar o vrus sem adoecer, Lael Yonker, do Hospital Geral de Massachusetts e principal autora do estudo, explica que esse potencial muito maior do que se poderia imaginar devido carga viral detectada nos pacientes com menos idade.

 

A pesquisa foi realizada com 192 crianas, adolescentes e jovens adultos de at 22 anos. Desses, 49 testaram positivo para a doena em exames realizados no Hospital Geral de Massachusetts e no Hospital Geral Peditrico de Massachusetts. Tambm entraram no estudo 18 pessoas, da mesma faixa etria, que apresentaram condies associadas infeco prvia por Sars-CoV-2. Os resultados mostraram que aquelas com o vrus ativo tinham quantidade muito grande do micro-organismo circulando.

 

“Eu no imaginaria que seria uma carga viral to alta; significativamente maior do que a dos adultos graves, internados nas UTIs”, diz Yonker. Essa caracterstica foi observada especialmente nos dois primeiros dias de infeco. “Voc pensa em um hospital e em todos os protocolos e precaues tomados para tratar os adultos gravemente enfermos, mas as cargas virais desses pacientes hospitalizados so significativamente mais baixas do que as de uma criana ou de um jovem aparentemente saudveis e que esto circulando por a com uma grande quantidade de Sars-CoV-2”, afirma a mdica.

 

Yonker esclarece que o potencial de transmitir o vrus para outras pessoas est diretamente relacionado carga viral – quanto maior, mais elevado o risco. Mesmo com uma quantidade alta de Sars-CoV-2 no organismo, pacientes mais jovens, especialmente as crianas, costumam apresentar sintomas leves de condies tpicas dessa fase da vida, como febre, tosse e coriza, que podem ser facilmente confundidos com um resfriado.

Menos receptores 

Alm da quantidade de vrus circulante, os pesquisadores estudaram como os receptores virais nas clulas reagem ao Sars-CoV-2 e tambm resposta do sistema imunolgico de crianas e jovens infectados. At agora, a crena mais comum de que os pacientes mais jovens tenham menos receptores, reduzindo os riscos de o micro-organismo conseguir entrar nas clulas e, dentro do ncleo, se reproduzir. Isso explicaria por que eles seriam menos propensos a se infectar e ficar doentes.

 

Contudo, segundo Alessio Fasano, diretor do Centro de Pesquisa de Biologia e Imunologia Mucosal do Hospital Geral de Massachusetts e coautor do estudo, apesar de as crianas mais novas realmente apresentarem menos receptores virais, se comparadas s mais velhas, aos jovens e aos adultos, quando infectadas elas apresentaro uma carga ainda maior. “Isso quer dizer que as crianas pequenas so mais contagiosas, independentemente de desenvolverem ou no a infeco por Sars-CoV-2”, afirma Fasano.

 

“As crianas no esto imunes COVID-19 e seus sintomas no se correlacionam com a exposio e a infeco”, refora o mdico. “Durante boa parte da pandemia, rastreamos principalmente indivduos sintomticos. Ento, chegamos concluso errnea de que a maioria das pessoas infectadas adulta. No entanto, nossos resultados mostram que as crianas no esto protegidas contra esse vrus. No devemos descartar as crianas como potenciais propagadores do Sars-CoV-2.”

Inflamao dos vasos

uma doena peditrica que causa febre, lbios ressecados e manchas na pele. Esses problemas so provocados por uma inflamao dos vasos, chamada vasculite. A causa dessa enfermidade ainda no foi descoberta. Com o surgimento da COVID-19, os pesquisadores comearam a notar um aumento de casos da sndrome, que considerada rara, em crianas infectadas pelos Sars-CoV-2. Com isso, especialistas passaram a suspeitar que poderia existir ligao entre as duas doenas. 

O que o coronavrus

Coronavrus so uma grande famlia de vrus que causam infeces respiratrias. O novo agente do coronavrus (COVID-19) foi descoberto em dezembro de 2019, na China. A doena pode causar infeces com sintomas inicialmente semelhantes aos resfriados ou gripes leves, mas com risco de se agravarem, podendo resultar em morte.
Vdeo: Por que voc no deve espalhar tudo que recebe no Whatsapp

Como a COVID-19 transmitida? 

A transmisso dos coronavrus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secrees contaminadas, como gotculas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal prximo, como toque ou aperto de mo, contato com objetos ou superfcies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Vdeo: Pessoas sem sintomas transmitem o coronavrus?

Como se prevenir?

A recomendao evitar aglomeraes, ficar longe de quem apresenta sintomas de infeco respiratria, lavar as mos com frequncia, tossir com o antebrao em frente boca e frequentemente fazer o uso de gua e sabo para lavar as mos ou lcool em gel aps ter contato com superfcies e pessoas. Em casa, tome cuidados extras contra a COVID-19.
Vdeo: Flexibilizao do isolamento no ‘liberou geral’; saiba por qu

Quais os sintomas do coronavrus?

Confira os principais sintomas das pessoas infectadas pela COVID-19:

  • Febre
  • Tosse
  • Falta de ar e dificuldade para respirar
  • Problemas gstricos
  • Diarreia

Em casos graves, as vtimas apresentam:

  • Pneumonia
  • Sndrome respiratria aguda severa
  • Insuficincia renal

Os tipos de sintomas para COVID-19 aumentam a cada semana conforme os pesquisadores avanam na identificao do comportamento do vrus. 

Vdeo explica por que voc deve ‘aprender a tossir’

Mitos e verdades sobre o vrus

Nas redes sociais, a propagao da COVID-19 espalhou tambm boatos sobre como o vrus Sars-CoV-2  transmitido. E outras dvidas foram surgindo: O lcool em gel capaz de matar o vrus? O coronavrus letal em um nvel preocupante? Uma pessoa infectada pode contaminar vrias outras? A epidemia vai matar milhares de brasileiros, pois o SUS no teria condies de atender a todos? Fizemos uma reportagem com um mdico especialista em infectologia e ele explica todos os mitos e verdades sobre o coronavrus.

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