Enquanto aumenta o valor dos insumos na vida rural e diminui o poder de compra dos brasileiros devida à crise econômica, novas portas se abrem para o mercado da avicultura. As exportações do frango produzido no Brasil estão a todo vapor e devem subir 8% este ano, ante uma expectativa inicial de alta de 3% a 5%. A estimativa é da Associação Brasileira de Proteína Animal (Abpa) que, na semana passada, divulgou novos dados do setor e mostrou que, nos seis primeiros meses do ano, o volume de carne de frango exportado pelo país foi de 2,3 milhões de toneladas, alta de 13,8% ante o mesmo período de 2015 – o melhor primeiro semestre da história em termos de volume exportado.

O destaque está com a China com alta de 110% no período. Reconhecendo que o primeiro semestre de 2016 trouxe estragos no setor produtivo do país – como desaceleração dos negócios, fechamento de fábricas e desemprego – o presidente-executivo da Abpa, Francisco Turra, define o incremento das exportações como um alento neste cenário. De acordo com ele, há uma grande expectativa com a manutenção das vendas para a China (consolidada como segundo maior mercado importador de carne de frango do Brasil), além do bom ritmo dos embarques para o Oriente Médio e outros países da Ásia, como Japão e Coreia do Sul.

Para se ter ideia, os embarques de carne de frango (considerando todos os produtos, entre in natura e processados) de junho atingiram 411,9 mil toneladas, volume 4,1% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Segundo a Abpa, o bom desempenho de junho contribui para que o setor encerrasse o primeiro semestre com exportações 13,86% maiores que o registrado nos seis primeiros meses de 2015. Ao todo, neste ano, foram embarcadas 2,266 milhões de toneladas – 276 mil toneladas a mais em relação ao ano anterior.

No entanto, em relação à receita cambial o saldo do semestre registrou retração de 1,25%, com total de US$ 3,384 bilhões. Em junho, a queda foi de 3,5%, com US$ 661,7 milhões. O analista de agronegócios da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Wallisson Fonseca, diz que, em Minas, no primeiro semestre deste ano, houve uma alta de 12,7% nas vendas em relação ao mesmo período do ano passado, com 115 mil toneladas de frango exportadas. Ele comenta que, por outro lado, o valor médio não acompanhou a alta e se manteve praticamente no mesmo patamar: US$ 158 milhões.

BOM MOMENTO “O mercado de exportação está favorável e são vários os fatores que justificam esse cenário. Um deles é que o Brasil tem conhecimento para manter um rebanho sadio que atenda as exigências dos países consumidores”, aponta Fonseca. Ele diz que outro fator que contribui para o bom momento é a taxa cambial, que fez com que o produto brasileiro ficasse mais competitivo lá fora. “E Brasil tem um misto de produtos que atende a todos os gostos de quem aprecia a carne de frango. Tem asinha, pé, entre outros. É um cardápio bem variado”, ressalta.

Segundo comenta o vice-presidente de mercado da Abpa, Ricardo Santin, a alta de 13,8% no volume das exportações é uma excelente notícia para o setor. “Foi o que garantiu a rentabilidade das empresas neste momento de retração da economia”, afirma. Um exemplo dessa boa guinada para as empresas é o da mineira Pif Paf. Segundo comenta, orgulhoso, o diretor de relações institucionais da empresa, Cláudio Faria, a Pif Paf está acompanhando esse bom momento das exportações e tem trabalhado para aumentar em 60% o volume exportado de frango este ano. “Embora atendamos o mercado doméstico, do volume total de 270 mil toneladas por ano que produzimos, 5% são levados para outros países, algo em torno de R$ 13 mil toneladas. Pretendemos, diante dessas novas oportunidades, aumentar esse percentual para 8%”, revela.

Atualmente, a Pif Paf atende a Rússia, Japão, Hong kong e Cuba. “Para a China ainda não temos habilitação e estamos buscando isso. Em 15 de junho, estive lá durante um evento mundial de alimentos em que a Abpa participou com um estande. Lá, fizemos contatos necessários e a expectativa é de que, este ano, passemos a mandar nossos frangos para lá”, afirma.

Dificuldades no mercado interno

“Tive que acabar com a minha criação de frangos. A exportação está boa para as empresas, para nós, produtores, o mercado interno está complicado demais”, comenta Nelson de Melo, de São Sebastião do Oeste, cidade do Centro-Oeste de Minas. Há 10 anos no ramo, ele diz que era criador por meio de parceira de integração com as empresas, para as quais ele criava os animais. “Porém, o valor que estão pagando é muito baixo e os custos de produção estão altos demais. Gastava R$ 0,60 por bicho e não estava recebendo nem esse valor”, reclama.

A queixa de Nelson é explicada com números da Associação Brasileira de Proteína Animal (Abpa). Segundo dados da entidade, ao longo dos seis primeiros meses deste ano, os produtores e exportadores de proteína animal viram o preço do milho dar saltos e alcançar patamares superiores a R$ 60 a saca. Agora, com a colheita da safrinha de milho e o leve “respiro” diante das cotações praticadas no cereal, é a vez da soja “pesar” nos custos e na competitividade dos produtores avícolas e suinícolas do Brasil.

Nesse contexto, a entidade estima que a produção de carne de frango no país este ano deverá cair para 13 milhões de toneladas, ante 13,14 milhões em 2015 e 13,5 milhões da previsão inicial para 2016, devido à crise de abastecimento de milho. “A esperança é que, depois do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff e de uma pacificação política, haja uma retomada da confiança dos consumidores no mercado interno”, comenta Ricardo Santin.

Ele afirma ainda que as empresas que sobreviveram a este momento complicado da economia brasileira foram obrigadas a não repassar o aumento dos custos ao consumidor. O Brasil realizou, desde o fim de 2015, fortes exportações de milho, na esteira de um câmbio bastante favorável, esgotando os estoques domésticos e obrigando indústrias de aves e suínos a comprar grãos a preços recordes. Segundo a ABPA, a oferta de carne de frango no mercado interno deverá recuar 5% em 2016 ante 2015, o que deverá gerar aumento de preços aos consumidores.

Fonte: Estado de Minas